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Auro Lúcio: entre Beatles, partos e folias

Auro Lúcio: entre Beatles, partos e folias

Por Marlei Gonçalves

Há pessoas que parecem carregar mais de uma vida dentro de si. Em São Francisco Xavier, o doutor Auro Lúcio é uma delas. Médico conhecido por gerações de moradores, participante das festas locais, violeiro, músico e figura marcante do Carnaval sãoxiquense, ele reúne histórias que atravessam consultórios, rodas de viola, blocos de rua e encontros comunitários.

Chegou ao distrito em 1989, convidado para atender a população na unidade de saúde. Ficou. E, ao longo das décadas, transformou-se em uma presença querida na vila: alguém que conhece os caminhos da medicina, mas também os atalhos da música, da brincadeira e da convivência. Nesta entrevista, Auro Lúcio recorda-se de mudanças no distrito, defende a valorização da cultura e deixa uma mensagem simples — e muito necessária — para quem vive ou chega a São Francisco Xavier: “Gentileza gera gentileza”.

“Cheguei como médico, mas logo me senti parte da comunidade”

Marlei — Você poderia contar um pouco sobre sua história e sua relação com São Francisco Xavier?
Auro Lúcio — Eu sempre fui médico do serviço público de saúde em São José dos Campos. Em 1989, fui convidado pelo secretário de Saúde, dr. Gilson Carvalho, para vir atender à população de São Francisco Xavier. O médico que fazia atendimento na UBS estava para ir embora. Vim para atender em horário diurno e seria procurado pelos que precisassem de atendimento durante a noite.
Em dois anos acompanhei a construção da atual UPA, onde fiquei como gerente durante alguns anos. Desde o início, eu me senti parte da comunidade como médico, violeiro e participante das festas locais.

Marlei — O que ainda o encanta na vida comunitária do distrito?
Auro Lúcio — O que ainda me encanta é a proximidade afetiva entre os moradores. Todos se conhecem e, ainda hoje, os antigos moradores têm uma relação de convivência muito bonita.
Quando cheguei, a rua principal tinha três ou quatro comércios, incluindo Seu Dito “Barbeiro”, e as demais casas eram habitadas.

Marlei — Como você viu São Francisco Xavier se transformar ao longo dos anos?
Auro Lúcio — A primeira mudança veio com o asfalto que ligou Monteiro a São Francisco Xavier. A estrada de terra era difícil nos tempos de chuva, os ônibus da Viação “Oito irmãos” encalhavam e os passageiros desciam para empurrar. Com o asfalto, foram chegando mais moradores, o centro da vila foi mudando.
Houve uma primeira chegada nos anos 2000, com pousadas e restaurantes sendo criados. Durante a pandemia, a zona rural foi crescendo e o número de moradores cresceu.
Como eu vi isso? Com olhar tranquilo, pois os tempos mudam e o caminho de uma cidade como São Francisco Xavier é o destino do turismo, com preservação do ambiente.

Marlei — Quais valores da comunidade local mais marcaram sua trajetória pessoal e profissional?
Auro Lúcio — O que mais me marcou – e marca – na comunidade é o carinho e respeito que tem por mim e pelos que chegam aqui. Eu me encantei com o acolhimento de pessoas com padrões diferentes, inclusive na questão de gênero, sem qualquer preconceito.

“A medicina me ensinou a respeitar a história de cada pessoa”

Marlei — Como surgiu sua decisão de seguir a carreira de Medicina?
Auro Lúcio — Eu entrei em Psicologia em Filosofia da USP em 1970, mas me decepcionei porque muito professores tinham sido afastados depois do AI-5. Minha namorada foi fazer cursinho para Medicina e eu disse: “Por que não?”. Nunca tinha pensado em ser médico… Mas eu sou há quase meio século. No ano que vem, completo 50 anos de carreira, e sou apaixonado pelo que faço.

Marlei — Quais foram os maiores desafios encontrados ao longo de sua atuação como médico?
Auro Lúcio — Sempre atuei como médico de serviço público de saúde. O maior desafio que encontro é o de querer disponibilizar os avanços da medicina para as pessoas comuns. Participei do Conselho Municipal de Saúde, Conferências Municipais, Estaduais e Nacionais de Saúde, sempre defendendo a posição dos trabalhadores e dos usuários dos serviços públicos. E isso não é fácil: as grandes descobertas em terapias e instrumentos para a saúde estão disponíveis, quase sempre, para os que têm recursos para pagar esses serviços.

Marlei — De que modo a Medicina influenciou sua visão sobre as pessoas e sobre a vida?
Auro Lúcio — Aprendi, e aprendo a cada dia, a respeitar a história de vida de cada um que está em minha frente em uma consulta médica. Procuro devolver ao povo o que recebi por cursar uma escola federal de Medicina, paga com o dinheiro público.

Marlei — Existe algum caso ou experiência profissional que tenha deixado uma marca especial em sua memória?
Auro Lúcio — Em raros momentos precisei fazer partos, tanto em São Francisco Xavier como em Monteiro Lobato. O milagre do nascimento ainda me comove mais que qualquer outro momento que eu vivo em meu trabalho.

Marlei — Como é exercer a medicina em uma comunidade com características tão próprias como São Francisco Xavier?
Auro Lúcio — Fui me tornando, pouco a pouco, parte ativa dessa comunidade. Encontro, no meu trabalho, as mesmas pessoas que encontro na rua e, com isso, posso ser eu mesmo, sem máscaras ou poses.

“Não existe ambiente sem música”

Marlei — Quando a música entrou em sua vida?
Auro Lúcio — Meu pai era violonista e seresteiro. Ele me ensinou os primeiros acordes no violão. Minha mãe era muito musical: cantava e ouvia rádio todo o tempo… Não tinha escapatória… Felizmente.

Marlei — Quais artistas ou estilos musicais mais influenciaram sua formação musical?
Auro Lúcio — Minha raiz é música popular brasileira dos anos 1950 e 1960. Nos anos 1960, conheci Bossa Nova e, logo depois, os Beatles. Assim, se for responder de modo curto: minha maior influência são os Beatles.

Marlei — O que a música representa para você?
Auro Lúcio — A música está na minha formação como pessoa e é a forma de comunicação mais rica que conheço. Cresci ouvindo boleros mexicanos, Bossa Nova, Elvis, Beatles e todas as riquezas da música brasileira, Chicos e Caetanos. Não há como imaginar um ambiente sem colocar uma música de fundo.

Marlei — Como surgiu sua participação na banda Bill Puxos?
Auro Lúcio — A banda Bill Puxos e seus Tenesmos foi criada por volta de 1972 na Escola Paulista de Medicina. Três colegas (Paulo Criscuolo, Ademir e eu) começaram a fazer paródias e canções autorais brincando com todos os estilos musicais. Dois anos depois, entrou no grupo o Pinga (Oreste Lavorini Júnior). Música em tom de crítica e humor, politicamente incorreto. A banda fazia shows na escola e, depois dos anos 1980, ressuscitei a banda para continuarmos até 2014.

Marlei — Como a arte pode contribuir para fortalecer os vínculos de uma comunidade?
Auro Lúcio — A arte, como expressão de uma comunidade, é uma linguagem que emana de todos os setores de um povo. Aqui em São Francisco Xavier, temos uma riqueza grande em artesãos, poetas, músicos, atores, todos buscando espaço para existir. Uma comunidade aberta à arte é aberta a existir de forma plena.

“Vai, Vomita e Vórta nasceu de uma conversa de bar”

Marlei — Como surgiu a ideia do bloco “Vai, vomita e vórta”?
Auro Lúcio — Meu amigo-irmão Pinga e eu frequentávamos o Carnaval de São Luiz do Paraitinga nos anos 1990. Em 2004, estávamos conversando no Bar do Clélio, na praça, e resolvemos criar um bloco para a nossa diversão. Pensamos em um bloco que fosse de bar em bar, tomando alguma coisa em cada um. O nome veio automático: “Vai, vomita e vórta”. No mesmo dia, fizemos a marchinha e saímos – meia dúzia de foliões – de bar em bar. No ano seguinte, éramos mais. Depois, gravamos a marchinha em um CD caseiro e colocamos em um carro com caixas de som no porta-malas. E foi aumentando, até que novos blocos foram chegando a partir de 2014.

Marlei — De onde veio esse nome do bloco?
Auro Lúcio — O nome tem a ver com VVV ser um bloco anárquico-etílico-carnavalesco, politicamente incorreto, como se pode perceber.

Marlei — Há alguma história divertida ou inusitada dos carnavais de São Francisco Xavier?
Auro Lúcio — Cada carnaval tem suas histórias, seus causos. O Carnaval de 2016 foi especialmente divertido: o “carro de som” era um carrinho de bebê onde instalei uma bateria, amplificador e caixa de som. O carrinho era empurrado de bar em bar, André Braga na guitarra e eu de Gay-xa. Minha fantasia foi homenagem à família do Leo Abe, que acompanhou o bloco usando rituais quimonos japoneses, formando o Bloco “Abe-Alas”.

“Uma comunidade sem memória se desmancha”

Marlei — Qual é a importância das manifestações culturais para a preservação da memória local?
Auro Lúcio — Desde que cheguei aqui participo de rodas de violeiros, Folias de Reis, Dança de São Gonçalo e outras brincadeiras tradicionais. O fato de ser o médico mais antigo na vila dá uma abertura, acredito, para que as pessoas da comunidade possam se envolver em atividades sem preconceito.

Marlei — Como você avalia a participação dos jovens nas atividades culturais do distrito?
Auro Lúcio — Tivemos, no final do século passado, atividades ligadas à saúde e à cultura, principalmente com participação da Fundação Cultural e FUNDHAS (Fundação “Hélio Augusto de Souza”). Tínhamos uma horta medicinal com mais de 60 espécies catalogadas, iniciamos oficina de manipulação de fitoterápicos, mas o projeto foi abandonado. Sinto falta de políticas públicas voltadas para os jovens sãoxiquenses. Há alguns trabalhos culturais nas escolas, mas penso que deveria haver uma política organizada para os jovens. Tivemos o Circo “São Xico”, criação de Sérgio Dias Reis, que promovia ações de ecologia, ensino e arte teatral. Hoje, temos o belo trabalho do Núcleo Educatho, uma luz nos projetos e atividades artísticas em São Francisco Xavier. Por que não um sistema que congregue todas as ações existentes?

Marlei — O que ainda precisa ser fortalecido na cena cultural de São Francisco Xavier?
Auro Lúcio — A memória de uma comunidade é o que dá sustentação para que ela continue existindo. Sem memória, as raízes culturais morrem, e a comunidade se desmancha. A riqueza cultural de nossa região (incluo aqui Mantiqueira e Vale do Paraíba) é extremamente rica. Vejo São Luiz do Paraitinga como exemplo a ser seguido. Nossas danças e cantorias, em nossa vila, foram se desvanecendo nos últimos 20 anos, fato agravado – se me permite a expressão – pelo advento das mídias digitais.

Marlei — Como equilibrar tradição e renovação nas manifestações populares?
Auro Lúcio — A sobrevivência cultural, nesses anos de Tik-Tok, vai depender do quanto vai se investir em literatura. Ler e escrever para exercer a reflexão, o tempo necessário para leitura e elaboração de textos. Quando o governo estadual suspendeu nosso Festival da Mantiqueira, um dos maiores eventos literários do país, a comunidade tomou as rédeas e criou o “Encontro na Mantiqueira” em 2016. Com colaboração voluntária de moradores e comerciantes, dezenas de autores vieram voluntariamente fazer palestras, grupos e atividades que mantiveram todos em um fim de semana encantado.
Há projetos de leitura, hoje em dia, nas escolas. Penso que deveria haver um evento anual para que a literatura se mantenha viva entre os jovens. O “Encontro da Mantiqueira” aconteceu há exatos 10 anos, junho de 2016.

Marlei — Qual foi o momento mais emocionante que viveu em São Francisco Xavier?
Auro Lúcio — O evento mais marcante de minha participação em São Xico foi o “Encontro na Mantiqueira”, quando um grupo de moradores – incluindo professores e comerciantes – bancou e executou um encontro de literatura perfeito. Restaurantes ofereceram refeições, e pousadas deram abrigo aos palestrantes voluntários. Jovens foram capacitados a atuar como guias, os shows da praça foram feitos por nossos artistas. Foi feita uma grande cozinha ao lado da igreja para alimentar os voluntários. Tudo transcorrendo como programado.

Marlei — Existe alguma figura da comunidade que o inspirou profundamente?
Auro Lúcio — Não é possível esquecer Dona Albertina, que foi mulher do Seu Cândido, ex-sub-prefeito de São Francisco Xavier. Dona Albertina era uma fortaleza no trabalho comunitário, criou Grupo de Mulheres para artesanato e discussão dos problemas e das necessidades delas. Um exemplo a ser seguido.

Marlei — Que histórias do distrito não podem ser esquecidas?
Auro Lúcio — Tenho pessoal apreço pelo Circo “São Xico”, atuante de 2004 a 2014. Criado pelo artista e cenógrafo Sérgio Reis, contava com participação voluntária de nossa comunidade. Nele, trabalhamos e exibimos muitas peças teatrais, espetáculos circenses e musicais abertos a toda nossa população. Foram anos maravilhosos, dos quais temos ainda muitos registros em vídeo e documentos.

Marlei — Quais são seus sonhos para o futuro de São Francisco Xavier?
Auro Lúcio — Eu sonho com uma São Francisco que receba o que o futuro está trazendo, mas que não perca a memória de sua origem de vila do interior.

Marlei — O que gostaria de ver preservado para as próximas gerações?
Auro Lúcio — A preservação da memória me parece ser o projeto mais importante a ser pensado e colocado em ação. Vemos, em países escandinavos, as escolas voltando a trabalhar com livros e palavra escrita em suas aulas. Isso é o que preserva a capacidade de reflexão e que distingue o homem de outros seres da criação. São Xico poderia – ou poderá ser – um modelo a ser seguido no quesito “respeito à memória”, como já o é no respeito ao ambiente.

Marlei — Que conselho daria aos jovens que desejam contribuir para a comunidade?
Auro Lúcio — Há um conselho que não é meu, é bem mais antigo: olhem para as pessoas que estão do seu lado… Seus colegas de escola, colegas de trabalho, esposas, maridos, companheiros. Ouçam a história de cada um. Façam contato suave com as pessoas e com a linda natureza de nosso distrito.

Marlei — Para encerrar: médico, músico, carnavalesco ou morador apaixonado por São Francisco Xavier? Qual dessas facetas melhor representa Auro Lúcio?
Auro Lúcio — Com distanciamento e respeito ao mestre Pessoa, todas essas facetas são verdadeiros “heterônimos” do Auro Lúcio, filho de uma libanesa e de um seresteiro caipira. Todos existem em mim e ficam batendo na porta, de dentro para fora, ansiosos para existir aqui na nossa São Francisco Xavier.

Marlei — Se pudesse resumir sua trajetória em uma única mensagem, qual seria?
Auro Lúcio — Gentileza gera gentileza.